APNEA: BOKA, BATERISTA DO RATOS DE PORÃO, FALA SOBRE SEU NOVO PROJETO MUSICAL



“Apneia” designa, entre outras coisas, uma modalidade do mergulho livre na qual o praticante submerge na água sem equipamentos, apenas com o ar de seus pulmões, e lá permanece o quanto seu corpo suportar. Desta forma, não me parece sem propósito a escolha de tal nome para o novo projeto do baterista Boka, do Ratos de Porão: algo ligado ao mar, natural para uma banda vinda de Santos, e ao fôlego, dadas as ganas de iniciante com as quais os integrantes embarcaram em um projeto fora do punk rock, sua área de atuação mais constante. Com um 7” na agulha (a ser lançado em breve pela Pecúlio, selo do próprio músico, em parceria com a Monstro Discos de Goiânia) e já com quantidade suficiente de canções para estrear em LP, o Apnea surge como um autêntico supergrupo caiçara, que investe em um mix de diversos estilos, sem nunca deixar de lado a personalidade praiana. Boka nos conta um pouco mais a respeito, nessa exclusiva para o Monophono que você lê a seguir.

 Monophono: Reunir essa formação para o Apnea, como foi? Já existia uma ideia para o direcionamento do som antes de vocês começarem a compor, ou os reais rumos da música do grupo surgiram somente depois dos primeiros ensaios?

Boka: Eu tinha um pensamento que me incomodava faz tempo, e que consistia na necessidade de fazer outro som, tocar um tipo diferente de música, sentir outra vibe em uma banda. Então, primeiramente convidei o Marcus (Vinicius, guitarra e voz), que tocou comigo no Safari Hamburguers; depois chamamos o Nando (Zambelli), que foi guitarrista do Garage Fuzz; logo a seguir o Marcus trouxe o Gabriel (Imakawa, baixo). Eu mesmo pontuei pra eles o direcionamento do nosso som, com influências que vão desde o rock dos anos 70 e que passam por grunge, stoner, indie rock e até mesmo um pouco de metal.

Monophono: A maior parte de vocês possui background ligado ao punk e ao hardcore. Era primordial desde o início mirar em algo diferente disso?

Boka: Sim, esse era o nosso ponto de partida desde sempre, mas como te disse, eu já falei pra todos logo de início o direcionamento musical no qual estava interessado, e os caras compraram a ideia rapidamente.

Monophono: O stoner rock é o ponto de partida para o Apnea. É uma unanimidade entre vocês? A criatividade aflora ao se trabalhar com algo que se equilibra entre o moderno e o vintage?

Boka: Na verdade não. O grupo todo gosta de stoner rock, ele é uma influência tão marcante quanto todas as outras, mas não temos a pretensão de nos classificarmos como uma banda do gênero – porém, se alguém disser que nosso som é stoner (o que até já acontece), não tenho problema algum em relação a isso. Acho que a criatividade está ligada mais ao momento, e menos ao estilo. Às vezes as ideias saem muito rapidamente, às vezes elas simplesmente não aparecem… Enfim. Mas acredito que poder tocar um som que seja mais aberto a uma grande variedade de influências, isso sim te dá muito mais vocabulário para que a criatividade aflore.

Monophono: Existe também evidente inclinação à surf music. Vocês, santistas, já possuem esse estilo de música dentro do coração?

Boka: Eu e o Nando sempre surfamos; já o Marcus é skatista. Como o Gabriel também é de Santos, creio que todos nós temos essa vibe de uma cidade de praia, e isso inevitavelmente passa pra música.

Monophono: Sentimos inclusive algo de alternativo/indie presente. Você é familiarizado com esses gêneros?

Boka: Sim, como já disse é uma influência que está bastante presente. Curto muitas bandas do estilo, assim como os outros caras também gostam – Sonic Youth, Weezer, Pixies, Dinosaur Jr, nomes nessa linha.

Monophono: O Apnea é nesse momento a principal atividade de vocês? Os esforços estão todos concentrados nesse novo projeto, ou vocês se envolvem com ele somente nos momentos de folga das bandas principais?

Boka: Acho que, à parte o meu caso, que toco com o Ratos de Porão, o Apnea é a principal banda de todos eles; mas eu trato o projeto com a seriedade de um grupo de fato, que desejo que se torne viável pra viajar, tocar, gravar discos, etc. Não há da minha parte o pensamento de que é algo para fazer somente quando tiver tempo livre. Temos dedicado parte considerável de nossas vidas para que o conjunto se torne uma realidade.

Monophono: O 7” EP via Pecúlio/Monstro terá duas músicas. O processo de compor tem sido mais vagaroso por conta do ineditismo da proposta?

Boka: Bem, a gente até que compõe rápido, pois já temos quase 12 músicas prontas, e se pensarmos que começamos a ensaiar em dezembro, paramos em março e voltamos agora em setembro, fizemos muita coisa até aqui. A quarentena nos atrapalhou muito. O lance de fazer um 7” é meio que trabalhar a banda à moda antiga, ou seja, o primeiro lançamento é um compacto com duas músicas que são exatamente as duas primeiras canções que escrevemos.

Monophono: Em relação a seu estilo como baterista: o quanto você se sente confortável em tocar de maneira mais controlada? É tranquilo, ou rola aquele “comichão” para dar uma acelerada?

Boka: Acho que sou um músico que se adapta ao que for necessário, mesmo porque a partir do momento que a gente se propõe a fazer uma coisa diferente, já nos concentramos exclusivamente naquilo. Me especializei em estilos de música velozes desde que comecei a tocar bateria e, sinceramente, não me vejo mais fazendo este tipo de som fora do Ratos de Porão.

Monophono: A pandemia tornou tudo muito difícil para a música ao vivo – porém, existem planos para o Apnea se apresentar com regularidade?

Boka: Sim, nosso foco é esse, tocar e fazer tours quando possível. É nossa grande meta, com toda certeza.

Monophono: O universo musical é riquíssimo, repleto de possibilidades e aventuras, isso para quem se dispõe a correr riscos. Nesse sentido, o da descoberta de novos caminhos, o quanto o Apnea é importante pra você?

Boka: É de extrema importância, pois dá vazão a um processo criativo e artístico que estava meio que “sufocado” dentro de mim. Tocar com essa banda é um aprendizado, uma alegria e um grandioso privilégio, por poder estar cercado de pessoas tão talentosas.

Confira abaixo as duas faixas lançadas pela banda.

Star King

In Search of Peace

 

 

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