AmarElo – É TUDO PRA ONTEM: UM EXEMPLO DE HISTÓRIA E REPRESENTATIVIDADE

Hoje (08/12), estreia na Netflix o novo documentário do rapper Emicida

Em mais um experimento social realizado através do seu último álbum, Emicida, que já contou a história de AmarElo no podcast, “AmarElo – O filme invisível“, desta vez, aparecerá nas telas da Netflix com o doc. “AmarElo – É tudo pra ontem“. Um documentário que mostrará não apenas os bastidores do show de lançamento de AmarElo em um dos palcos mais tradicionais e históricos do Brasil, o Theatro Municipal de São Paulo, mas também a história que não é contada, a história de grandes nomes do samba, do movimento negro e todo o significado que a música tem para contar o passado que nosso país tentou jogar para baixo do tapete.

Como em grande parte de sua carreira, Emicida consegue quebrar barreiras, e, à vista disso, não foi diferente, sendo o primeiro a realizar um show de rap dentro do Theatro Municipal. Com um detalhe crucial, disponibilizando ingressos a preços populares, e, assim, enegrecendo o lado de dentro deste espaço que fora construído por mãos negras. Como o mesmo disse em entrevista quando perguntado o porquê da escolha do Municipal: “Porque não tem uma viga, não tem uma ponte, não tem uma rua, que não tenha tido uma mão negra trabalhando”.



Aliás, outro detalhe histórico faz parte da escolha deste local. No dia 7 de julho de 1978, uma manifestação nas escadarias do Theatro Municipal, reuniu 2 mil pessoas, em plena Ditadura Militar. Diversos grupos de atletas, artistas e entidades do movimento negro reuniram-se após o assassinato do garoto Robinson Silveira da Luz, preso, torturado e morto em consequência das torturas realizadas por policiais militares no 44° Distrito Policial de Guaianases, decidindo então pela criação do Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial, que se transformou no MNU – Movimento Negro Unificado.

Emicida reconta a nossa história e ainda faz questão de mostrar a importância daqueles que vieram antes de nós, levando para dentro do Municipal algumas das pessoas que estavam do lado de fora, 41 anos antes. Milton Barbosa (Miltão), Regina Lúcia dos Santos, José Adão de Oliveira e Wilson Roberto Levy estiveram presentes e foram homenageados por ele nesse dia.

Foto por Jeferson Delgado | Theatro Municipal de São Paulo

“ADENTRAR NAQUELE ESPAÇO, ME TROUXE DIVERSAS SENSAÇÕES INEXPLICÁVEIS, MAS QUE TENTAREI DESCREVER AQUI.”

Dia 27 de Novembro de 2019 ficará marcado até o fim da minha vida graças a um cara chamado Leandro Roque de Oliveira, que não me conhece, mas que já me salvou direta e indiretamente várias vezes, porém, ficarei apenas no show de lançamento de AmarElo. Quando alguém me perguntava se eu conhecia o Theatro Municipal, a minha resposta era sempre a mesma:

Conheço, já passei muito em frente, já fiquei com amigos andando de skate e bebendo em suas escadarias, já fui em protestos que se concentraram na porta. Mas nunca entrei lá, não!. ”

Pois bem, assim como eu, diversas outras pessoas também não conheciam este lugar por dentro e o Emicida nos trouxe mais que a possibilidade de entrar nesse local, nos trouxe a sensação de pertencer a este lugar sem culpa, sem medo e sem preocupações. Lembro-me que ao passar pela porta e ver aquele hall com uma escadaria bem de frente, me senti dentro daquelas novelas de época, mas foi ao entrar dentro do anfiteatro que me veio um filme na cabeça. Comecei a olhar a arquitetura daquele lugar e pensar em como podemos viver em dois mundos tão distintos somente ultrapassando uma porta. Talvez para você que frequenta estes espaços seja algo comum, mas creio que para muitos como eu, seja um misto de sensações. Se não fosse por esse show, será que eu teria entrado lá um dia? Será que tantos negros estariam dentro desse Theatro sem ser para trabalhar?

Já se perguntou isso?



Fiquei pensando em meu avô, vindo de Pernambuco para tentar a vida nessa selva de pedra, da minha mãe que trabalhou como doméstica em casas de família com apenas 12 anos de idade, vejo que não vim parar nesse lugar à toa, eu sou a continuação dos meus antepassados e a sensação que senti, provavelmente, tem a ver com toda uma geração que veio antes de mim.

O memorável e inesquecível show que contou com a participação de diversos e diversas artistas, fez com que eu me derramasse em lágrimas no auge dos meus 31 anos. Naquele dia eu senti o verdadeiro significado da palavra representatividade.

AmarElo – É tudo pra ontem“, mostra que é urgente ressignificarmos o que aprendemos até aqui sobre nosso passado, resgatando e enaltecendo heróis que foram ofuscados pelo mito da democracia racial desse país. Além de, a partir de agora, sermos protagonistas e não mais coadjuvantes da nossa própria história.


Confira também a resenha do álbum AmarElo, que rolou no Monophono em julho desse ano, clicando no link abaixo:

AmarElo – O ÁLBUM QUE COLOCOU UMA NOVA REFLEXÃO NO IMAGINÁRIO DO RAP NACIONAL

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