OS TRINTA ANOS DE ARISE: UM SEPULTURA RADICAL, MAS JÁ MADURO E EXPERIMENTADOR


Início dos anos 90, seis horas da tarde. Quando ligávamos no programa Disk MTV, entrávamos em contato com uma vasta miríade de artistas e estilos – de George Michael a Iron Maiden, de Kid Abelha a “Enter Sandman”, de 3rd Bass a Claudinho e Buchecha, dos últimos suspiros do hair metal com o Poison a seus “assassinos” Nirvana, Alice in Chains e Soundgarden. Existia uma óbvia predominância do rock (vivíamos o auge de Guns N’ Roses, Skid Row e Extreme, assim como o já citado grunge monopolizava atenções); porém, nem a onipresença de guitarras poderia preparar incautos ou leigos à presença do videoclipe de “Arise” em uma parada de sucesso comercial. Assustadoramente brutal mesmo perante seus pares thrash (incluindo nomes frementes como Kreator e Dark Angel), a canção foi produzida por Scott Burns, sujeito que ajudou a formatar os signos mais degenerados do death metal – como diabos algo assim aparecia misturado a “More Than Words” e “To Be With You”? A recente consagração no exterior ajudava a explicar, a monstruosa apresentação no Rock in Rio de 91 também; assim, mesmo que o Sepultura fosse um evidente estranho no ninho e teoricamente direcionado apenas a die-hards obcecados por violência sonora, seu merecimento era inconteste.





“Arise”
surgiu ensanduichado por dois terremotos que sacudiram o thrash metal no início dos anos 90. “Seasons in the Abyss”, do Slayer, lançado a 9 de outubro de 1990, dava continuidade ao processo de drástica remodelação musical/temática iniciado em “South Of Heaven”, de 88, e sua mudança formal foi de tal maneira impactante que ampliou-se para se tornar uma revitalização do próprio gênero, o primeiro desvio de curso de sua história. O Metallica e seu “Black Album” chegaram por último, 12 de agosto de 91, com alvo bem definido: as paradas de sucesso. Polido ao extremo (bem-comportado, até), intencionalmente despido dos malabarismos instrumentais de “…And Justice For All” e em busca desesperada por ampliação de público, o disco, ainda hoje recordista de vendas e ao mesmo tempo interminável objeto de discussão, determinou outra alteração de rota, esta mercadológica – atenuar o som tornou-se um atrativo e tanto, e nomes estabelecidos se deixaram seduzir pela possibilidade do megaestrelato (o “grunge” “Sound Of White Noise”, do Anthrax, e o melódico “Countdown to Extinction”, do Megadeth, são dois exemplos). O thrash vivia sua fase de maiores transformações, portanto; porém “Arise” não foi concebido para seguir roteiros, e sim escrevê-los de próprio punho.





A pressão de ser uma promessa terceiro-mundista e carregar nos ombros a responsabilidade de representar o metal de todo e qualquer centro periférico do planeta gerou “Beneath the Remains”, uma das obras mais bestiais que o mundo já expeliu. “Arise” reafirma a missão, porém com segurança redobrada: o profissionalismo é enfim uma realidade, a rotina incessante de turnês fez surgir um entrosamento sobrenatural, estar 24h atado à vivência de uma banda não exauriu os caras, e sim fez crescer sua fome. A ideia do thrash como um regurgito, um tornado fora de controle que em BTR recebera tratamento áspero à altura de sua podridão, aqui ganha tintas sofisticadas, ambiciosas até – “Desperate Cry”, a mim a mais completa composição de toda a trajetória do Sepultura, possui tantas trocas de ritmo, tanta variedade de riffs, tantos movimentos habilmente interligados e tamanho domínio do riscado, que é quase como se fosse o disco inteiro de qualquer outra formação condensado em apenas uma faixa. “Dead Embryonic Cells”, “Murder” e “Subtraction” não ficam atrás em complexidade, enquanto a pegada d-beat de “Meaningless Movements” e o prenúncio de “Chaos A.D.”Under Siege (Reignum Irae)” adicionam variedade ao painel total. Sobra ainda tempo para “Infected Voice”, pedrada ortodoxa que encerra em si mesma essa fase inicial do quarteto (apenas esparsamente o “novo” Sepultura que surgiria a partir dali registraria tamanho tresvario rítmico).




O amadurecimento como arranjadores, o foco definitivo na fruição da criatividade e a produção de Burns em tom ideal são indubitáveis pontos gerais para o sucesso de “Arise” – mas dois fatores particulares são capitais para um resultado tão poderoso. Primeiramente, a grande fase do baterista Igor Cavalera, à época alçado a um dos melhores instrumentistas do planeta graças a seu fulgurante pendor para combinar vigor, velocidade e precisão (um legítimo discípulo de Dave Lombardo, inclusive em suas predileções por ritmos tribais). Segundo: a categórica consolidação de Andreas Kisser como força motriz dentro do conjunto. Ele, que modelou de vez a veia thrash do Sepultura em oposição às raízes death já em sua estreia, com “Schizophrenia”, aqui aparece plenamente à vontade, e sua marca pessoal se faz visível em todos os aspectos artísticos do álbum (o líder que o guitarrista se tornaria mais à frente via-se ali antecipado). Peças fundamentais na elaboração/execução de um todo implacável, trabalho que ao mesmo tempo exalta o old school e aponta ao futuro, o último suspiro de uma era thrash por uma das bandas que mais renovaram o estilo. O assalto maior da “Third World Posse” permanece essencial.


Vídeo oficial da faixa-título:

“Desperate Cry” ao vivo:


Álbum na íntegra:

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