BLACK SABBATH E OS CINQUENTA ANOS DE “PARANOID”: NEUROSES, FADAS DE BOTAS E CULTO AO VAZIO



Exagero dizer que “Paranoid” possui importância comparável a “Sargent Pepper’s” ou a “Dark Side Of The Moon”, isso pra citar apenas dois entre tantos outros que se tornaram uma revolução cultural? A comparação me parece interessante até mesmo do ponto de vista musical: Ozzy Osbourne sempre confessou seu desejo em ser um Beatle quando criança (e até hoje penso que foi aquele riff do refrão de “Come Together” que guiou Tony Iommi a timbrar sua guitarra); enquanto que uma canção como “War Pigs”, descontando-se a ausência de teclados e sua proposital atmosfera cataclísmica, possui em seu esqueleto trocas de tempo e complexidade instrumental de uma composição progressiva. Mas, por fundamentais que sejam os álbuns de Beatles e Pink Floyd, inesgotáveis à sua maneira, enigmas forjados para serem eternamente indecifráveis, plenos como produtos que ultrapassam os círculos de aficionados e que se fundem à própria roda da história como seus agentes diretos, nenhum deles carrega consigo a criação/cristalização de um estilo, ou melhor, de um universo à parte, como é o heavy metal – e, há 50 anos, bandas surgem aos borbotões, em todos os cantos do globo e dedicadas aos mais variados subgêneros, graças a esse segundo registro do Black Sabbath. E seus méritos, já monumentais, não param por aí.



Desde o início “Paranoid” virou do avesso o clichê jornalístico “um produto de seu tempo”: concebido para ser o justo revés das sonoridades reinantes em sua época, seja o rock alegre do desbunde psicodélico ou a pompa (anacrônica desde o berço) dos gigantes progressivos, recusava tanto a crença lisérgica em um mundo melhor dos primeiros quanto a técnica formal como elevação espiritual dos segundos. Com seu som desintelectualizado e marcial, desamarrado de utopias sócio-comportamentais ou artísticas, propunha uma forma de diversão peculiar: música como o avesso da vida, destituída propositalmente de quaisquer edulcorações ou parnasianismos. O primeiro disco tinha algo de indefinível em relação a direcionamento – a faixa-título era um norte considerável a ser seguido e seu eco retumbou por toda a carreira do Sabbath, mas a mão invisível do blues rock de bar, referência do quarteto na época em que ainda chamavam Earth e influência direta para a criação de seu material inaugural, ainda paira ubíqua por todo o LP. Não que o blues esteja ausente de Paranoid (“Hand of Doom”, por exemplo), mas nele as coisas começaram a se uniformizar, a ganhar uma cara mais pessoal, a soar cada vez mais poderosa conjuntamente. E, claro, mais pesada.



Porém o que diferenciava “Paranoid” de toda a concorrência proto-metal de sua época era justamente essa vivência direta com o pesadelo mundano, e sua postura de encarar como descartável e desonesta qualquer forma de arte que busque sublimar a descrença, ao invés de amplificá-la. Não estamos lidando com poetas ou sonhadores, e sim com broncos, trabalhadores braçais de Birmingham, gente que lida com a insatisfação e a falta de perspectivas 24h por dia. A letra da faixa-título já mostra que não há escapatória para a doença cotidiana, e escancara a perplexidade perante a felicidade reinante em uma existência que só nos esmaga. A insanidade, segundo os trinados de um imberbe Ozzy, é destino tão implacável quanto o outro tema que domina o disco – a morte. Tirania, conflitos armados, guerra nuclear, ou mesmo a simples ação do tempo: aquele arrastar de correntes musical, encarnado na batida lenta, hipnótica e inquiridora de Geezer Butler e Bill Ward e que faz cama para os riffs perversos do genial Iommi, nos mostra que o caos é inescapável, e que contemplar o abismo também pode ser divertido (não é à toa que a palavra “void” identifique imediatamente os plagiadores do Sabbath e que seja tão comum entre os gêneros derivados de sua sonoridade, como o stoner e o doom: o culto ao vazio precisa ser unilateral, e abarcar tanto o tema quanto a forma). Dessa fascinante compulsão em abraçar o que o mundo rejeita originou-se o metal, e toda e qualquer especificidade que se desenvolveu a partir dele nas últimas cinco décadas.



O primeiro, mesmo que com alguma insegurança, instituiu os preceitos; “Masters of Reality” ergueu uma parede de riffs monolíticos para consolidar em definitivo o heavy metal como estética; “Volume 4″ possui o timbre de guitarra mais imitado de toda a música pesada, em uma coleção de canções que beira o inacreditável; Sabotage” soa mais variado, “Sabbath Bloody Sabbath”, mais ambicioso. “Paranoid”, contudo, virou um planeta do avesso – e seu aniversário trata-se de mera formalidade: ele é celebrado sempre, em todo e qualquer disco de metal que você coloque pra escutar.



Um Box Super Deluxe de “Paranoid” (fotos acima) está disponível para pré-venda contendo um vinil duplo do álbum (sendo LP 1 com a gravação original e LP 2 com uma mixagem quadrifônica estéreo), um vinil triplo ao vivo (“Live In Montreux 1970 parte 1 e 2” e “Live in Brussels 1970 parte 1 e 2“), um livro contando a história do disco, entre outros itens. Para garantir o seu, clique aqui.

Ouça o álbum “Paranoid” na íntegra:

 


“Iron Man” ao vivo em 1970:


“War Pigs” em 1974:


Versão de 2017 de “Hand of Doom”:

 

2 comentários em “BLACK SABBATH E OS CINQUENTA ANOS DE “PARANOID”: NEUROSES, FADAS DE BOTAS E CULTO AO VAZIO

  1. Muito bem elaborado e pensado. Conseguiu captar toda a magia da obra do Black Sabbath. Belo texto, só me resta parabenizá-lo !!! Parabéns muito lindo e verdadeiro !!!

Deixe uma resposta