MOPHO: TRÊS MOMENTOS DE “MONDO BIZARRO”, ÁLBUM DOS RAMONES QUE COMPLETOU 28 ANOS

Lembro até hoje como terminava a resenha de “Mondo Bizarro” feita por Fernando Souza Filho em uma Rock Brigade de 1992: “se esse disco fosse prensado em ouro, valeria cada centavo que fosse preciso pagar”. Assombrado por essa frase e pela empolgação do articulista, eu, garoto não apenas com interesse crescente em Ramones, mas também cheio de curiosidade para entender qual era a desse mundo insano do rock’n’roll, logo juntei uns trocados para adquirir a fita K7 do referido álbum (por sorte feita de plástico, um pouquinho mais barata do que ouro…) – e a primeira audição mostrou que, se as hiperbólicas últimas linhas daquele texto podiam parecer exageradas na forma, no conteúdo lidavam precisamente com a verdade: a estréia de CJ no baixo trouxe de volta um vigor instrumental que os trabalhos dos anos 80 haviam diluído; Marky Ramone mostrava-se em forma exuberante, e ainda se arriscava como compositor; a voz de Joey, versátil como nunca, pulava do ódio ao amor com a naturalidade que só de um intérprete genial feito ele se espera; Johnny cuspia riff em cima de riff, em uma depuração do próprio estilo rumo a direções mais desafiadoras; até Dee Dee se fazia presente ao assinar algumas canções, em um todo poderoso como não se via desde “Road to Ruin”, de 78.



Mesmo uma criança como eu podia sacar que ali existia algo especial – e que merecia ter adquirido vulto de clássico absoluto do quarteto nova-iorquino, lado a lado com “Rocket to Russia” ou com a estréia auto-intitulada de 76, não fossem as notícias de desentendimentos internos (que culminariam no fim do grupo um par de discos à frente) tomarem a frente da parte musical em manchetes do mundo inteiro. A tensão permanente entre os integrantes os fez crescer artisticamente, mas a infeliz necessidade de lavar roupa suja em público obscureceu esse trabalho sensacional.



“Mondo Bizarro” completou 28 anos na segunda-feira passada – e a coluna Mopho dessa semana resgata três momentos desse álbum fora de série.

O primeiro mostra o quarteto tocando no programa de Jay Leno, algo em si mesmo já digo de destaque, pois apresentações dos Ramones em atrações de TV eram bem pouco frequentes.  A música escolhida foi “Censorshit”, brado anti-censura composto naquele momento em que o PMRC (sigla para Parents Music Resource Center, comitê conservador fundado por esposas de senadores nos EUA) colocava adesivos de “letras explícitas” nas capas dos álbuns de artistas, de Dr. Dre a Cannibal Corpse. Acima de tudo, porém, um teste para as próprias intenções de Joey, que, sabedor do moralismo que regulamenta a televisão de seu país, e doido pra conferir se o tão norte-americano conceito de “liberdade” estava apenas em suas próprias palavras, escolheu propositalmente a única do repertório com um palavrão no título… Confira:

Em “Mondo Bizarro” temos um cover para “Take It As It Comes” dos Doors. No vídeo a seguir ninguém menos do que o próprio Robby Krieger se junta aos caras no palco, e aproveita pra fazer com a guitarra as partes que Ray Manzarek mandava no teclado.

E, por último, a maravilhosa balada “I Won’t Let It Happen” em versão acústica, com Joey e alguns amigos/amigas nos bastidores do extinto clube CBGB. A data apresentada no início (1991) mostra que as imagens foram captadas um ano antes de lançamento de “Mondo Bizarro” e que, portanto, a canção era um tema inédito vindo a público bem antes de seu registro oficial – não reconheci quem está com ele e as intenções dessa reunião são imprecisas, mas o que falta em informações sobra em emoção. Veja:

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