MARCÃO: A HORA E A VEZ DO BATERISTA DO DEAD FISH E AÇÃO DIRETA

Foto por Marcelo Marafante

Durante a adolescência, descobri a bateria. De início, meus ídolos eram pessoas que hoje em dia me dão vergonha (Lars Ulrich, por exemplo), gente que dificilmente é citada nessas listas de influências (Sady do Nenhum de Nós – sim, eu pirava nas levadas dele!) e outros que admiro até hoje (Eric Carr, AJ Pero do Twisted Sister, Tommy Lee). A maioria nomes distantes, que surgiam via MTV, em clips mirabolantes ou em acrobáticas performances ao vivo – faltava, pois, algo mais próximo, mais real. Pois eis que em um show do Ação Direta, o primeiro que eu comparecia em minha vida e acontecido no bar do Aragão, em Diadema, rolou a epifania: ali estava o que era realmente ser um baterista de som pesado! Velocidade, força, técnica e precisão: Marcão reunia as características que todos aqueles que martelam tambores com baquetas perseguem (depois de algum tempo descobri que simplesmente não existia ninguém no ABC dedicado ao instrumento que não tivesse o cara como referência). Entrar depois no Dead Fish mostrou que não apenas minha turminha o admirava, mas sim que sua habilidade ultrapassava (com toda justiça) as fronteiras da nossa região. E eu, quando tocava com o Slug Beezing, lá por 2010, participei de um show com o Ação Direta no Cidadão do Mundo em São Caetano do Sul, e só tinha uma coisa em mente: “será que o Marcão tá vendo eu tocar? Estou mandando bem ou passando vergonha?”. Não sei até hoje…   

Trocamos uma ideia com ele, a respeito do Ação Direta, do Dead Fish, dos últimos discos das duas bandas e de outras coisas mais. Confira!

 Monophono: Existe prioridade pra você, quando o assunto é Ação Direta e Dead Fish? Como é se dividir entre as duas bandas?

Marcão: A minha preferência é tentar estar no palco com as duas bandas sempre que possível; mas, desde quando entrei no Dead Fish, tive uma conversa franca com o pessoal do Ação Direta, e deixamos tudo muito bem resolvido quanto a prioridades. Temos um super baterista para quando eu não consigo fazer os shows com o AD, meu “cumpadi” Eduardo Nicolini (ex-Nitrominds, atual Cruel Face, Voodoopriest e Anthares) – ele sempre representa, e faz um puta trabalho bem executado.

Monophono: O que você acha que levou do Ação Direta para o Dead Fish? E do Dead Fish para o Ação Direta?

Marcão: Mano, acho que no fim das contas levei mais do Ação Direta pro Dead Fish do que o contrário… Mesmo porque, quando entrei no Dead Fish, eu já estava havia 15 anos no Ação, e tinha uma forma de tocar que agora acabo usando nas duas bandas – mas sempre com os arranjos certos para o estilo de cada uma. 

Foto por Marcelo Marafante

Monophono: Ponto Cego é musicalmente bastante melódico, mas sempre com o ritmo acelerado. Pode-se dizer que seu estilo já está plenamente incorporado à personalidade da banda?

Marcão: Quando começamos a fazer o “Ponto Cego”, tivemos uma conversa e decidimos: queríamos um álbum que fosse uma cacetada mesmo, agressivo em vários momentos, mas sempre com muita melodia. O disco tem bastante músicas rápidas, e conta o tempo todo com a tradicional energia do HC melódico. Meu estilo está completamente absorvido pela banda, com toda certeza! 

Monophono: Desde outubro de 2008 com o DF e dois discos gravados com o grupo. Esses quase 12 anos foram mais de desafios ou de recompensas pra você?

Marcão: Olha, desafios, você estando a todo momento na estrada, nunca acabam… Desafios musicais acabaram rolando também, pois muitas das músicas do Dead Fish exigem uma batera mais centrada e com influências do hardcore, e que no final acabam virando um mix de HC com metal. Recompensas eu tive de monte! Vários festivais e shows com bandas fodas, ver o público feliz com nossa apresentação, trocar uma ideia com a galera depois do som e sacar que fizemos as pessoas que ali estavam curtirem… Isso é sempre muito gratificante. 

Monophono: O Rodrigo e você se tornaram o núcleo da banda nos últimos anos. A que você credita essa rotação de músicos dentro do Dead Fish?

Marcão: Muitas vezes, dentro de uma banda, o ciclo de um integrante se encerra por si mesmo. Boa parte dessas saídas foram por questões pessoais mesmo, e nunca tornamos isso um problema. Da mesma forma, temos bastante sorte de sempre conseguirmos bons músicos pra integrar esse time. 

Monophono: Na Cruz da Exclusão é seu sexto álbum de estúdio com o Ação Direta, mais um ao vivo. O que mais te chama atenção em relação a essa trajetória que vocês construíram?

Marcão: Hoje em dia é muito difícil ter uma banda com três décadas de existência, que contabilize poucas mudanças de formação, e atuando sem parada em um cenário inconstante como o brasileiro. É assim: acabamos de gravar um disco e poucos ensaios depois já estamos falando de música nova, gravar uma pré, essas coisas que motivam a gente a não parar nunca. Somos uns velhos incansáveis (risos)! 

Monophono: A meu ver, o parente mais próximo de Na Cruz da Exclusão é o Massacre Humano (sexto álbum de estúdio da banda, lançado em 2006)… Unir o hardcore ao metal é a maior missão do Ação Direta?

Marcão: Esse lance de unir o metal com o punk é muito involuntário. Nós todos ali dentro da banda escutamos muitos gêneros musicais, inclusive metal e HC, o que gerou algo que no início era um verdadeiro punkcore. Já no “Revolta/Repúdio/Confronto/Resistência” (quinto álbum do Ação, de 2004), injetamos uma boa dose de metal com blastbeats acelerados, uma receita que achamos que daria uma cara diferente pro nosso som. O “Massacre Humano”, por sua vez, é um disco mais pro metal do que pro hardcore – estávamos em um momento muito podrão, e acabou que gravamos um álbum podraço também. 

Monophono: O Ação sempre primou pela variedade musical, não se atendo somente à estrita fórmula hardcore e incorporando diversas influências em seu som. Tocar em uma banda assim é um estímulo constante para um baterista?

Marcão: Tocar no Ação Direta sempre foi estimulante, com certeza. Temos uma boa dose de liberdade pra compor e arranjar as músicas. Se ficar ruim tira tudo; se ficar ruim de novo, refazemos do zero, sem problema nenhum, e assim permanecemos sempre compondo e atuando ao vivo. 

Foto por Stephanie Marino

Monophono: Sinto uma diferença em relação à sonoridade da bateria do Ponto Cego para o Na Cruz da Exclusão. É uma questão de produção somente, ou houve alguma mudança de equipamento?

Marcão: Cada disco tem sua particularidade sonora. Buscamos por um tipo de som bem específico pra cada álbum, então a produção acaba diferenciando a todos eles (sendo também que foram gravados em estúdios distintos: o “Ponto Cego” no Tambor do Rio de Janeiro, e o “Na Cruz da Exclusão”, no Bay Area, aqui em São Paulo). Impossível manter uma sonoridade única – melhor assim, pois essa nunca foi a ideia mesmo. 

Monophono: Gosto muito do Cruel Face, projeto que contou com sua participação e que registrou bastante material… Você chegou a ser convidado para voltar com a banda?

Marcão: Na verdade eu saí porque não iria dar pra continuar fazendo os shows na época com o Cruel, o Ação e o Dead Fish, mas somos amigos há quase 30 anos. Convite pra voltar ainda não tive, mas quem sabe um dia fazemos um encontro. 

Monophono: Um pouco mais sobre o Marcão: quais são suas influências como baterista? Estão apenas no punk/metal, ou incluem outros gêneros musicais?

Marcão: Escuto muito metal/hardcore, mas minha maior influência vem do thrash Bay Area. Curto outros estilos também, como Tower of Power, Speedometer, Maceo Parker, The Fearless Flyers, entre outros. 

Foto por Marcelo Marafante

Monophono: Você tem uma rotina individual de treinos? Ou a prática com as bandas já é suficiente?

Marcão: Com o Dead Fish a rotina de ensaios não é tão intensa, pois até chegar essa pandemia a gente estava com uma agenda de shows bem cheia, então praticávamos mais quando iríamos colocar alguma música nova no set list. Já com o Ação mantemos uma rotina de pelo menos um ensaio semanal. Tenho o hábito de tocar sozinho também, umas duas ou três vezes por semana. 

 Monophono: Você toca algum outro instrumento? Como um baterista participa do processo de composição de uma banda?

Marcão: Toco duas cordas de um violão véio que tenho aqui (risos), mas acabei participando de várias músicas do “Massacre Humano” e do “Na Cruz da Exclusão”. Já no Dead Fish ajudo mais nos arranjos, junto com o Rick (Mastria, guitarrista). 

Monophono: Hoje você é um músico profissional, que vive exclusivamente de tocar bateria? Quais as gratificações e quais os mitos dessa tão sonhada “vida na estrada”?

Marcão: Viver na estrada é igual viajar pra casa da avó no interior, quando se é criança: você não vê a hora de ir, mas dá uns quinze dias seguidos e você fica com o saco cheio dela (risos)… Já tive muitos motivos para parar, desistir de tocar numa banda que vai direto pra estrada, mas seria como tirar uma perna minha. Vivo nessa há mais de 30 anos, e depois de certo tempo você percebe que é impossível ficar sem tudo isso. A estrada é gratificante, mas também te coloca à prova em muitos momentos. 

Monophono: O que você tem escutado ultimamente? Recomende uns sons aí pra galera que acompanha o nosso site.

Marcão: Fora as bandas mais groove/jazz/fusion que curto, ouço muito metal, thrash, death metalSlayer, Dark Angel, Sodom, Destruction, Kreator, DeathAborted, Morbid Angel, Celtic Frost, e por aí vai… 

AÇÃO DIRETA – NA CRUZ DA EXCLUSÃO ÁLBUM NA ÍNTEGRA

DEAD FISH – PONTO CEGO ÁLBUM NA ÍNTEGRA

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