RANCID: OS 25 ANOS DO DEFINITIVO “…AND OUT COMES THE WOLVES”

A primeira metade dos anos 90 viu o punk rock renascer – isso diz a história “oficial”. Óbvio que o estilo/movimento nunca morreu, e que esse “ressurgimento” tratou-se de descarada jogada mercadológica, mas não se há de negar que ali existia uma geração de bandas que de forma alguma passaria em branco. O ano de 94 foi decisivo para todo o auê: nele saíram os megaplatinados “Dookie” do Green Day e “Smash” do Offspring, e estes trouxeram a reboque outros nomes para o mainstream do período, a maior parte na batalha desde o final dos anos 80. O ouro concentrava-se nas mãos da Epitaph, gravadora fundada pelo guitarrista do Bad Religion Brett Gurewitz inicialmente para lançamentos de sua própria banda, e que reunia gente de pedigree para amplificar o abalo sísmico após a explosão das duas citadas mais acima. Basicamente o Santo Graal do punk californiano: NOFX (que também em 94 lançou o definitivo Punk in Drublic), Pennywise (o mais “badreligeano” dos protegidos de Mr. Brett), Pulley (criado a partir do Ten Foot Pole e autor do disco mais subestimado do período, “Esteem Driven Engine”), Down by Law (projeto de Dave Smalley, do Dag Nasty e All), Total Chaos (focado no d-beat inglês) e um quarteto de Berkeley com The Clash correndo nas veias – o Rancid.

Antes existiu o Operation Ivy, no qual o guitarrista Tim Armstrong (na época conhecido como Lint) e o bass-hero Matt Freeman instituíram de forma brilhante o que viria a ser chamado de skacore – a vida curta não impediu que lançassem uma obra inesquecível de nome “Energy”, além de alguns EPs e singles com faixas também fundamentais. No que o Operation tornou-se história, a dupla uniu-se ao baterista Brett Reed e montou o Rancid – o primeiro álbum, auto-intitulado, saiu em 93 com uma proposta diferente da formação anterior: tocar punk rock veloz, direto e reto, com vocais crus que destoavam da melodia reinante na Epitaph, e com evidente inspiração no street punk britânico. “Let’s Go” veio em 94, marcou a chegada do guitarrista Lars Frederiksen, e tornou mais abusiva a fórmula testada no disco anterior: como se o Chaos UK batesse de frente com o “It’s Alive” dos Ramones, tínhamos ali uma tonelada de canções curtas, ritmo desenfreado e refrões que grudavam na mente feito araldite a um azulejo (um dos talentos mais pronunciados de Armstrong é fazer uma única frase/palavra tornar-se eloqüente como um hino). Porém a falta de uma maior variedade ao repertório (que detratores apontavam como problema também no Operation Ivy) colocava um entrave para o futuro – então, mais cedo do que se poderia imaginar, o grupo contornou com galhardia sua principal limitação criativa.

Lançado a 22 de agosto de 1995, “…And Out Comes The Wolves” fecha uma seqüência de três discos em dois anos (um total geral de 58 temas gravados!), e coloca rapidamente o Rancid no topo: “Time Bomb” vira hit mundial ao revisitar o DNA ska de dois quartos de seus integrantes; e “Ruby Soho”, o primeiro single do álbum, exibe até mesmo alguma sofisticação, atrelada aos códigos básicos da música do conjunto. Pois, entre as muitas lições que o Rancid aprendeu com o The Clash, sua maior influência, está a de que a curiosidade é chave nesse negócio chamado “punk”, e que abrir-se ao mundo é mais do que necessário, tanto como artistas quanto como seres pensantes. A música negra, o rock’n’roll, o pop, o street punk/Oi!, tudo convive pacificamente dentro das canções do álbum, e essa coexistência é vital e transformadora, não só por mostrar que a universal congregação humana que o punk busca é sim possível, mas também por assim deflagrar o melhor de cada um dos compositores da banda. Celebrar o rocksteady jamaicano com “Daly City Train”, retirar lágrimas de melodias duras com “The 11th Hour” e a pequena obra-prima “The Wars End”, contar histórias com “Journey To The End Of The East Bay” e “Olimpia WA”, gritar o orgulho punk com “Avenues and Alleways” e a fabulosa “Roots Radicals” (minha favorita), caprichar nas guitarradas com “Listen M.I.A.” e “Disorder and Disarray”, refletir com o suave skaOld Friend ”… Os destaques são inúmeros, cada um com sua particularidade, perfazendo um todo riquíssimo, e sempre desafiador.

“…And Out Comes The Wolves” é o manifesto definitivo que o Rancid legou ao mundo. Aqui, ser musicalmente brilhante não basta: é necessária uma gigantesca fome de mundo e de vida para que o material, suas ideias e energia façam o sentido que deles se busca. E tornar-se um dos registros mais libertários do punk rock americano, artística, espiritual e socialmente, é a conseqüência natural de uma busca particular, de inicialmente compreender a si mesmo no âmago para depois transcender rumo à luz. Grandeza acima de tudo existencial, marcada indelevelmente na história do rock.

…And Out Comes The Wolves na íntegra:

 

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