DOBLE FUERZA RELANÇA “PIBES DE BARRIO” EM VINIL: BEM-VINDO AO PUNK ROCK ARGENTINO

Uma ideia até meio clichê na cabeça de brasileiros que acompanham o punk rock argentino: “eis algo que poderia ser mais conhecido por aqui”. Não deixa de ser verdade, e até hoje me foge a explicação do por que bandas como 2 Minutos, Attaque 77, Flema, Expulsados, Mal Pasar, Argies, Katarro Vandaliko, Cadena Perpetua, Bulldog, Flemita, Cretinos e muitas outras serem tão pouco recorrentes aqui – mesmo que se conheça a resistência tipicamente brasileira em relação à língua espanhola, fruto de radicalismos bobocas, empobrecedores e isolacionistas. Mas o conceito de êxito aí seria o quê? Execução em rádios comerciais? Participação em festivais com Dave Grohl e Eddie Vedder? Ser entrevistado pelo Programa Pânico ou pelo Pedro Bial? Ainda somos condicionados a igualar massificação a sucesso – e um trabalho musical de qualidade independe de artifícios para encontrar um público que saiba valorizá-lo.  

Um dos melhores (senão o melhor) desses grupos portenhos é o Doble Fuerza, da cidade de Quilmes, província de Buenos Aires. Fundado em 1987, possui raízes nos Ramones sim, como todo o punk argentino, país declaradamente apaixonado pelo quarteto de Nova York; mas é provavelmente a mais inglesa de todas as bandas platinas – eles deixam claro em seus slogans e frases de divulgação ser uma formação street punk, e sua música possui fartas referências a sonoridades que os liga a Cock Sparrer e Cockney Rejects. Nessa cruza entre a idolatria ramônica de uma nação, a urgência proletária britânica, cânticos barrabravas transportados ao mosh pit e bom humor inabalável proveniente de doses maciças de cerveja, surgiram verdadeiros clássicos do rock latino – e talvez o maior deles será enfim relançado em vinil: “Pibes de Barrio”, primeiro discos do DF e um dos mais significativos registros do punk vizinho.


O álbum se inicia com uma declaração de princípios: “Sigo Siendo El Mismo”. Ou seja: gravar um disco não significa mudança em suas crenças básicas, postura ou atitude. “Morir de Amor” apresenta um dos talentos mais incríveis do vocalista/letrista Hugo: falar de sentimento de maneira despojada, mas precisa, o que o torna um romântico mais efetivo do que muitos crooners apaixonados por aí… “Disturbios” é a primeira canção urbana do disco, e desafio o ouvinte a não ficar com o “oh-oh-oh-oh-oh” do refrão permanentemente na cabeça! “Vuelvo a Ser Feliz” fala de desilusão amorosa, com um solo melódico marcante, que faz lembrar Buzzcocks. “Tito, El Apesteoso” capricha no humor ao contar a história de um punk que há muito foge de uma chuveirada (como João Gordo disse certa vez, “tomar banho é coisa de sociedade de consumo”). “Falsa Humanidad” é a mais longa e raivosa do disco, e não por conta de algum ardil musical: seu desencanto surge das contradições do ser e da descrença trazida por uma reflexão mais acurada sobre nossa natureza.



O lado B inicia-se com a faixa-título, um autêntico hino street punk que fala de uma característica por excelência argentina: o orgulho do bairro de nascença. “Monika” é o momento mais ramônico do álbum – com clima nonsense que remete a temas como “Judy is a Punk”, fala de se apaixonar por uma estrangeira. “Fútbol” narra uma treta de torcidas, enquanto “No Seas Botón” é um irresistível ska clashiano com um sensacional solo de saxofone. “Ya No Salgo Com Vos” capricha na cadência rock’n’roll, enquanto fala de feridas não curadas de um relacionamento mal resolvido (a simplicidade romanesca de Hugo, na mosca mais uma vez). “Yo No Entiendo Por Qué” encerra os trabalhos com clima semelhante ao de “Falsa Humanidad” do lado anterior, mas sua descrença é direcionada: o sistema que permite a adoção de meios ilícitos para que indivíduos se sobressaiam, indiferentes em prejudicar o todo (polaróide do período Menem). Mais do que um disco, um documento – de um estilo musical, de um movimento, de uma época, de um país.

Confira abaixo, na íntegra, “Pibes de Barrio“:

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