TEMPLE OF VOID: ENTREVISTA COM O GUITARRISTA ALEX

Muitas bandas, ao longo da história, buscaram fundir o death ao doom metal – uma ambição justificada, já que a característica lentidão do doom torna ainda mais dilacerante o espírito sanguinário tão necessário ao death. Pois, se o Temple of Void se destaca perante todas, é por fazê-lo de uma forma tão homogênea que as fronteiras de ambos enfim se nublam – e The World That Was, o último disco do quinteto norte-americano, não apenas exibe o conjunto com domínio máximo da fórmula que ele próprio desenvolveu, como também os mostra prontos para enfrentar desafios ainda maiores. O guitarrista Alex Awn tem um tanto mais a nos dizer sobre o disco e sobre o grupo, nessa exclusiva para o Monophono.

Monophono: O Temple of Void é uma banda que, desde o início, possuía uma sólida visão da própria musicalidade e estilo. Como a personalidade do grupo desenvolveu-se tão rápido?

Alex Awn: Atualmente, todos estamos na casa dos 40 anos, com exceção de apenas um. Então, o Temple of Void é um projeto “tardio” pra gente, pode-se dizer assim. Isso significa que todos já tivemos bastante experiência pregressa com bandas para aprender. Assim, quando nos juntamos para formar esse grupo, estávamos aptos a trabalhar em alto nível desde o início! Já tínhamos uma ideia clara do que queríamos alcançar a partir do momento em que compusemos nossa segunda música. Nos aferramos a isso como a um estatuto, desde então. A meta é nos tornarmos a melhor banda de death/doom metal do planeta.

Monophono: Muitos gostam de revisitar a tal “síndrome do terceiro disco” de tempos em tempos, mas isso dificilmente pode se aplicar ao death metal americano (Once Upon the Cross, The End Complete, Covenant, Spiritual Healing, pra nomear alguns). O terceiro álbum trouxe algum tipo de ansiedade? Ou vocês estavam confiantes o suficiente para não se amedrontar?

Alex: Não acredito que sequer chegamos a pensar nisso. Apenas compomos aquilo que nos interessa compor. “The World That Was” foi tão bem recebido que chega a parecer loucura… Muitos o apontam como nosso melhor disco até aqui. A aposta foi alta e se pagou, de certa forma. Mas isso não influencia de forma alguma o que virá no quarto disco – como já dito, escrevemos apenas aquilo que mais gostamos.    

Monophono: Temple of Void é a banda death mais doom que existe por aí, ou o grupo doom mais death que já ouvimos na vida?

Alex: (Risos) Cara, essa é uma boa pergunta. Às vezes penso que a primeira definição é melhor, em outras horas prefiro a segunda. Creio que atualmente eu nos consideraria única e exclusivamente uma banda de death metal, no entanto. Comecei achando que éramos doom com muito de death metal. Agora, pra mim, tocamos death com doom. Me faça essa pergunta semana que vem e minha resposta pode ser outra (risos).

Monophono: O ultimo disco mais uma vez mostra vocês como uma banda extremamente meticulosa e exigente. É assim mesmo? Perfeccionismo é uma bênção ou uma maldição, quando se compõe canções de death metal?

Alex: Gastamos uma boa quantidade de tempo para que as coisas fiquem realmente em um nível bastante alto. Mas em certo ponto você precisa dizer “chega” e apenas terminar o maldito disco (risos). Existem coisas no “The World That Was” que certamente mudaríamos agora, mas não temos a intenção de ser perfeitos. Não tocamos com “click-tracks” ou coisas assim, somos uma banda bastante orgânica nesse sentido. Mas o que tentamos é capturar o nosso melhor, sem passar dos limites. É necessário que haja sentimento, atmosfera. Falávamos sobre o assunto na noite passada, inclusive. Existem erros em discos do Led Zeppelin! Mas quem liga pra isso? É cru. É real.

Monophono: Existe um sentido épico em cada nota do Temple of Void, mas também uma forte melancolia – isso tudo sem deixar de soar ríspido e opressivo. Manejar essa alquimia, na qual reside o melhor da banda, é difícil como parece?

Alex: “Alquimia” é uma boa palavra pra definir isso. Existe uma sensação de “atmosfera” em nossa música que você não pode ensinar ou mesmo falsear. Essa “atmosfera” é resultado de uma série de diferentes fatores envolvidos na composição de um tema – e parte disso, com toda certeza, vem direto de nossas entranhas. Eu não diria que é algo difícil pra gente, mas sim que levamos muito a sério a criação de nossas canções. Retomamos o que escrevemos seguidas vezes até conseguirmos lapidar algo do qual nós cinco estejam plenamente satisfeitos. Todos os riffs precisam ser os riffs certos, e estarem em seus lugares corretos. Não encaro como “perfeccionismo”, no entanto. Nós não ficamos bitolados com nada. Nunca fui tão exigente assim com os meus riffs. Somente buscamos dar maior atenção aos detalhes, e de ter mais paciência para lapidar aquilo que produzimos.

Monophono: Liricamente, o Temple of Void sempre pareceu focar o “outro lado” da vida, o inacreditável e o inexplicável… O novo álbum trata novamente desses mesmos temas, ou vocês resolveram incluir novos elementos?

Alex: Nessa ficaria melhor uma resposta do Mike (Erdody, vocalista), já que ele é o letrista da banda. Contudo, poderia dizer que Mike dessa vez tratou de temas mais introspectivos, assim como fez uso de uma visão mais global nos temas. Nossos álbuns anteriores possuíam muitas narrativas baseadas em livros, mitos populares, ou mesmo filmes. Esse mais recente busca enxergar além disso, e observa a morte de uma maneira mais existencial. Prefiro não ir muito longe na análise, pois trata-se de algo que Mike poderia elaborar de forma bem mais eloquente. Mas, no todo, percebo que ele buscava uma maior auto-reflexão para compor essas letras do que fez uso no passado. O cara é um grande contador de histórias, então acredito que ele ainda consiga usar esses aspectos mais pessoais e tecer belas alegorias a partir deles.   

Monophono: As artes dos três discos são impressionantes. Conte-nos mais sobre a capa de “The World That Was”, e se vocês as utilizam para complementar as letras ou para trazer algo completamente novo ao conceito do disco.

Alex: Nós definitivamente buscávamos colocar o ouvinte em uma viagem com esse álbum. É nosso objetivo sempre, mas dessa vez nós realmente elevamos o padrão artístico. É a experiência mais imersiva que já lançamos. Na capa temos cinco almas dentro de um barco pequeno sendo transportadas rio abaixo. O condutor é baseado em Charon (N. do R.: Caronte em português; personagem da mitologia grega que conduzia os espectros de recém-falecidos para o mundo dos mortos), e sua referência surge para acompanhar as músicas “Leave The Light Behind” e a instrumental “A Single Obolus”. Então, existe uma conexão direta entre a ilustração e algumas letras, sim. O barco se aproxima dessa entrada cavernosa para uma montanha. Temos um logo do Temple of Void, sobrenatural e vigilante, no topo desse lugar. O que existe nessa montanha, então? Vamos descobrir juntos.

Monophono: Falando de artes, este desenho épico deve ficar fantástico em uma capa de vinil! De que forma as velhas bolachas demandam um cuidado maior do que os lançamentos em CD?

Alex: Sim, nada fica tão lindo quanto um desenho que cubra completamente a capa de um disco de vinil. Sem discussão! Não tenho muita certeza de como te responder em relação a isso, mas posso falar que eu mesmo despendo bastante tempo e atenção em relação aos layouts dos álbuns (N. do R.: é o próprio Alex quem cuida da diagramação dos trabalhos do Temple of Void). Nossa apresentação visual é muito importante, no que diz respeito a como a banda é recebida e consumida por nossa audiência.

Monophono: Vocês parecem ter encontrado uma casa na Shadow Kingdom Records. Como você acredita que um selo possa fazer a diferença para uma banda nos dias de hoje?

Alex: O trabalho da Shadow Kingdom para promover o “The World That Was” foi realmente muito bom, mas para o nosso próximo lançamento já encontramos um novo lar. Tivemos uma excelente experiência com o pessoal da gravadora, mas mesmo as coisas boas chegam ao fim.

Agora, estamos de partida para outro lugar – contudo, não posso falar nada a respeito até que as coisas estejam oficializadas.

Monophono: Death metal é um demônio musical que se redefine constantemente em território norte-americano, desta vez com o Blood Incantation à frente de uma nova geração. Como você enxerga o Temple of Void perante essa turma?

Alex: Devo dizer que não nos atemos muito a esse tipo de coisa, mas “redefinição” é uma boa palavra para utilizar aqui. Acho que o que conduz a galera até o Temple of Void é o fato de nosso som ser único. Acredito que a forma com a qual trabalhamos a união entre dois gêneros é inédita entre as que já tentaram fazer isso – e as pessoas reconhecem e admiram tal empenho. Isso meio que nos leva de volta à sua questão “doom mais death” ou “death mais doom”: nós realmente nos esforçamos para obter o melhor desses dois mundos. E o resultado que conseguimos a partir disso é por si só inovador o suficiente para que consigamos destaque perante nossos pares. Outra coisa que nos distingue de outras bandas death metal é o fato de não termos receio de fazer uso de estruturas musicais mais tradicionais de tempos em tempos.

Intro, verso, refrão, verso, refrão, etc. Não escrevemos “saladas de riffs”. Escrevemos canções, com a ideia de serem singulares e marcantes, e as pessoas acabam atraídas por isso.

Monophono: Antes do Covid-19 vocês tinham uma rotina constante de shows? Ou preferiram desde sempre concentrarem-se no lado criativo da banda, compondo e gravando?

Alex: Tiramos um ano exclusivamente para escrever o “The World That Was”. Estávamos preparados para promovê-lo quando o Covid surgiu. Então, nesse momento estamos com as atividades paradas. Mas temos usado esse descanso forçado para trabalhar pesado no álbum de no. 4. Então, já estamos com o pé no acelerador, e ninguém terá de esperar mais três anos por um lançamento nosso. Prometemos que tudo ficará pronto de maneira mais rápida dessa vez.

Monophono: Lá em 2015 a Cianeto Discos lançou o debut “Of Terror and the Supernatural” aqui no Brasil. Nos conte como os fãs brasileiros da banda responderam ao trabalho de vocês.

Alex: Gostaríamos de ter uma melhor conexão com os brasileiros, sabe… É difícil pra gente saber como nossos álbuns são recebidos, em várias partes do mundo. Não possuímos os direitos de “Lords of Death” nem de “The World That Was”, então infelizmente não podemos autorizar uma edição brasileira dessa vez – senão o faríamos. Sempre tivemos selos em vários países para distribuir os lançamentos da gente. Alemanha, Ucrânia, Polônia, Brasil, Estados Unidos. Adoramos esse tipo de conexão underground, e amamos ser recebidos por uma audiência internacional. E, mesmo que não tenha nada a ver com death metal, toda vez que assisto documentários com Ayrton Senna, eu choro. Para mim, o Brasil é Senna. RIP.

Monophono: The World That Was (“o mundo que era”)… E a partir de agora? O que, na visão de vocês, podemos esperar do pós-pandêmico “mundo que está por vir”?

Alex: Porra, essa é uma boa pergunta (risos)! O mundo será o que fizermos dele. No meu caso, isso significa ter menos pressa na vida, e assim manter o foco nas coisas que realmente me trazem satisfação. Passar um tempo com minha família, o Temple of Void, pintar, estar com amigos. A quarentena nos fez diminuir o ritmo de tudo, e tenho adorado isso. Então, isso nos ensinou uma lição sobre prioridades. Em um nível macro, espero que isso tenha ensinado a todos uma coisa ou duas sobre escolher com sapiência seus líderes. O Temple of Void não é uma banda política; cada um de nós possui visões e opiniões próprias, por isso não gostaria de me estender muito em diatribes relacionadas a esse assunto. Mas espero ver o mundo se tornar um lugar mais solidário. Menos focado em consumo também. E gostaria de encontrar o pessoal do Monophono em algum festival brasileiro no futuro… Muito obrigado pela entrevista! Valeu!

Revisão do texto em inglês: Gabriela Parisi Ramos (gpramos88@gmail.com)

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