AmarElo – O ÁLBUM QUE COLOCOU UMA NOVA REFLEXÃO NO IMAGINÁRIO DO RAP NACIONAL

Foto por Daryan Dornelles       

Lançado no final de 2019, AmarElo é um álbum que merece ser reverenciado no universo da poesia e do hip-hop.

Com o título inspirado no poema de Paulo Leminski (Amar é um elo, entre o azul e o amarelo), Emicida questiona o velho imaginário sobre o rap e diz que: “o rap é compreendido por um estereótipo que é o mesmo dado às pessoas pretas, como a raiva e a pobreza“. Com isso, o músico introduz uma leveza diferente em sua criação, permitindo uma experiência esplendorosa, que, não apenas os amantes do rap, mas também os da música, devem vivenciar.

O som de abertura já mostra que este não será um álbum comum, deixando nítido que o amor é essencial para tudo. Mas não é apenas aquele amor que estamos acostumados a ver, é o amor a vida, o amor a sua raça, o amor a toda história do povo negro, que carrega muito mais do que as mazelas sociais e humanas. É uma forma de agradecimento e resgate a toda sabedoria ancestral que mostra que os negros são muito mais do que este estigma que os reduz apenas a dor e sofrimento. Com as participações de Fabiana Cozza, do Pastor Henrique Vieira e das Pastoras do Rosário, a música “Principia” é realmente o princípio, o começo de tudo, é ali o início dessa nova forma de enxergar o universo.

O artista mostra que realmente está disposto a mudar essa percepção e manifesta uma outra visão política, reafirmando que os pretos têm o direito de existir e não apenas resistir. Com isso, exalta todo o valor que existe nas coisas simples da vida, e em “Pequenas Alegrias da Vida Adulta”, traduz isso de uma forma encantadora e extremamente sensível.

A evolução de Emicida, tanto musical quanto na escrita, é notória. Sua leveza musical conecta-se com suas novas composições e as famosas punch line vão abrindo espaços para uma lírica ainda mais elaborada, uma estética parecida com a de grandes compositores brasileiros como Djavan, Gilberto Gil, Cartola, Mateus Aleluia, Chico Buarque, entre outros. Podendo ser identificado na canção “Cananéia, Iguape e Ilha Comprida”.

Foto por Eder Alexandre | Batalha da Matrix SBC

Mas isso não significa que Leandro deixou de lado aquele bom e velho rap nacional. Com suas linhas de soco certeiras e um speedflow afiado, “Eminência Parda” expõe toda a fúria necessária contra o racismo. Nessa música, ao lado do rapper português Papillon e do jovem paulista, Jé Santiago, (integrante da Recayd Mob), Emicida faz uma conexão ancestral, com a nova escola do rap, principalmente, quando Dona Onete abre e fecha a música, resgatando um trecho do “Canto dos Escravos“, conhecido na gravação de Clementina de Jesus.

O respeito a ancestralidade é uma de suas marcas registradas, e na faixa “Quem Tem um Amigo (tem tudo)”, o rapper homenageia o amigo e saudoso sambista, Wilson das Neves. Para participar desta singela homenagem, Emicida convidou outro gigante do samba nacional, Zeca Pagodinho. Com certeza este será um samba que ficará imortalizado na memória dos ouvintes e uma homenagem póstuma a altura do Seu Wilson, falecido em 2017.

Foto por Jeferson Delgado | Theatro Municipal de São Paulo

O disco é uma intervenção poética, em tom acolhedor e de revolta, e em “AmarElo”, música que carrega o nome do álbum, Emicida trata de questões complexas como a depressão e ansiedade. Para compor esse som, ele convidou as cantoras Majur e Pablo Vittar, colocando o dedo na ferida da homofobia presente na sociedade e, inclusive, no universo do rap.

O álbum também conta com a participação de Ibeyi (irmãs gêmeas franco-cubanas Lisa-Kaindé e Naomi Diaz), em um som que marca toda a mistura latina com o afrobeat.

Além delas, participam do disco, a revelação da Laboratório Fantasma, Drik Barbosa. Tem também músicas com a bela voz de MC Tha, Larissa Luz, além da participação da atriz Fernanda Montenegro, recitando Ismália.

O álbum AmarElo é uma obra de arte, que, sem dúvidas, ficará marcada na história. Demonstrando como o Emicida consegue se reinventar e alçar novos vôos que vão colocando ‘o Zika‘ entre os gigantes, não apenas do rap, mas da música brasileira.

Confira abaixo, “AmarElo”:

3 comentários em “AmarElo – O ÁLBUM QUE COLOCOU UMA NOVA REFLEXÃO NO IMAGINÁRIO DO RAP NACIONAL

  1. Muito bom o texto, conseguir expressar o quão grandiosa é a obra do Emicida, artista que marcará para a eternidade a música popular brasileira.
    Parabéns pelo texto!

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